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Despedem o inverno e saúdam a Primavera, para os Caretos o Carnaval é um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações. Em Podence, concelho de Macedo de cavaleiros, todos os anos é assim. Chegado o Mês de Fevereiro, os homens envergam os trajes coloridos (elaborados com colchas franjadas de lã ou de linho, em teares caseiros) escondem a cabeça dentro de uma máscara de lata, prendem uma enfiada de chocalhos à cintura e bandoleiras de campainhas e dispendem toda a energia do mundo para assinalar o calor e os dias maiores que se prestem a chegar.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

Normalmente, contam com os favores do Sol, magnânimo para quem louva o seu reino com tanto fervor. Religioso também, pois assim se marca, com os últimos estertores da folia o início da Quaresma. Período de calma, reflexão e contenção do calendário religioso. A cansar no Carnaval para acalmar até à Páscoa!

Caretos de Podence
Caretos de Podence

Dizem fontes, que a festa de Podence se imerge no domínio dos tempos até às antigas Saturnais Romanas – celebração em honra de Saturno, Deus das sementeiras. Procura-se acalmar a ira dos céus e garantir favores de uma boa colheita. Nesses tempos idos da agricultura de subsistência, a diferença entre a vida e a morte quase se cingia à dimensão da lavra. E a dupla máscara acentua a relação, ao lembrar uma das duas importantes divindades romanas: Jano Deus do passado e do futuro e também do presente, senhor dos portões e entrada, da guerra e da paz e dono de todos os princípios.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

O filho de Apolo, que um dia partilhou o trono com Saturno e conjuntamente civilizaram os habitantes de Itália, levando-os a tal prosperidade que ao reinado chamaram era de ouro, é geralmente representado com duas caras por ser do passado e do futuro, e principalmente, por ser símbolo do SOL, que aparece de manhã e se esconde à noite. Passados à parte, em Podence ainda hoje a agricultura é a principal actividade da população. Da terra se extrai cereais e castanhas, embora nos últimos anos, tenha aumentado a produção de azeite.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

A aldeia de Podence parece ter força suficiente para manter tradição e garantir a vida a estas figuras, recheados de homens endemoninhados, armados de chocalhos e rédea solta para as tropelias. Mesmo, explicam os mais velhos, o tempo tenha brandado as folganças e as moças da terra já não sintam tantas nódoas no corpo. Melhor que nada, pois nos anos 70, esteve a tradição por perder-se, à conta dos últimos anos de ditadura e do fenómeno da emigração. Recuperada uma década mais tarde, quando alguma prosperidade respirar um pouco o interior, que abraçou também o regresso de alguns dos que tinham ido à aventura. Hoje serão quarenta dezenas os homens com fatos de Carreto e energia para invadir a praça na aldeia domingo e terça feira de Entrudo.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

E o futuro está garantido, pois há muitos Facanitos (crianças com fatos idênticos aos mais velhos), prontos a tomar o testemunho. Os outros aqueles que não podem envergar fatiota, abrem as adegas para dessedentar os folgazões. A imunidade conferida pela máscara, permite aos Caretos mergulhar nos excessos. Sendo as mulheres solteiras as vítimas preferências. Encostam-se a elas e ensaiam estranhas danças com conteúdo erótico, agitando a cintura e batendo com os chocalhos nas ancas das vítimas que para bem do corpo acompanham a dança. Dança, com o nome chocalhar.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

Entre o barulho festivo, a risota e o alarido lembram-se outros tempos em que as mulheres se escondiam em casa pois os foliões iam muito para além dos chocalhos, lançando cinza e dejectos e fustigando as incautas com pele de coelho seca ou bexiga de porco fumada. Para não falar no banho de formigas, broma pesada e cruel com especímenes selvagens recolhidos nos campos durante meses. Também as casas eram invadidas e panela ao lume era panela condenada a verter o conteúdo para mal da barriga dos infelizes. Ao Careto mau, diabo à solta pelas ruas de Podence, querem-no vivo em cada Fevereiro, mesmo que à conta disso não possam dormir descansadas as moçoilas da aldeia de Podence.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

Porém com a internacionalização dos últimos anos, tal parece impossível. Realmente desde as Jornadas de Cultural de Popular da Academia de Coimbra em 1985, importantes para o reavivar da tradição, até aos dias de hoje, os Caretos transmontanos percorrem um lento caminho que os levou de Norte a Sul do país, a figurar na Capa de CD da Brigada Victor Jara e até ultrapassar fronteiras para actuar na Disneyland Paris, Carnaval de Nice e Carnaval em Itália.

Caretos de Podence
Caretos de Podence

Adaptados ou não a tempos de mais brandos costumes o Carnaval de Podence mantém o clima fantástico de antes. Sedutores e misteriosos, os Caretos guardam a magia dos tempos em que as histórias junto à lareira franqueavam a entrada em mundos de sonho. A eles tudo se permite; o anonimato dá-lhes prerrogativas, dá-lhes poder. Por dois dias no ano os homens são crianças e quem mais brinca mais poder tem.

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia, parabéns pelo site.
    Gostaria de vos perguntar se conhecem os autores das duas ultimas fotos da presente publicação pois gostaria de incorporar as fotos numa publicação.

    Obrigado.

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