Há doces que pertencem a uma região. E há outros que praticamente se confundem com a própria identidade de uma terra.
As Roscas de Monção pertencem a esse segundo grupo.
Pequenas, douradas, com a característica cobertura branca de açúcar e tradicionalmente vendidas em conjuntos, estas roscas fazem parte da tradição gastronómica de Monção e estão profundamente ligadas às festas, romarias e momentos de convívio do Alto Minho.
A sua receita utiliza ingredientes simples, mas a preparação tradicional exige experiência. A massa é trabalhada, moldada à mão e cozida até adquirir a sua característica cor dourada, antes de receber a cobertura de açúcar.
Mas talvez o mais interessante seja perceber que as roscas nunca foram apenas um doce.
Em Monção, fazem parte de uma tradição que continua associada às festas e à memória de várias gerações.
O que são as Roscas de Monção?
As Roscas de Monção são um doce tradicional do concelho de Monção, no Alto Minho.
Apresentam uma forma circular característica e uma massa de tonalidade amarelada, associada à utilização de açafrão. A essência de anis contribui para o aroma particular do doce.
Depois de cozidas e arrefecidas, as roscas recebem uma cobertura branca de açúcar.
Tradicionalmente, podem ser apresentadas em conjuntos de seis ou doze, uma forma de apresentação que ajuda a distingui-las visualmente de outras roscas e doces semelhantes.
A receita é simples na sua composição, mas não necessariamente fácil de executar.
É a experiência de quem prepara a massa, a molda e controla a cozedura que ajuda a determinar o resultado final.
Porque levam açafrão e anis?
Dois ingredientes merecem particular atenção nas Roscas de Monção: o açafrão e o anis.
O açafrão contribui para a tonalidade dourada ou amarelada da massa, enquanto o anis acrescenta um aroma muito característico.
Não são ingredientes utilizados apenas por uma questão estética.
Fazem parte do perfil sensorial que ajuda a identificar o doce.
É precisamente este tipo de pormenor que torna interessante estudar as receitas tradicionais portuguesas. Muitas vezes, um ingrediente utilizado em pequena quantidade é suficiente para conferir uma identidade completamente diferente a uma preparação.
Como são feitas tradicionalmente?
A preparação começa pela massa.
Os ovos são batidos e incorporados na farinha, juntamente com água, açafrão e essência de anis.
A massa é depois trabalhada até adquirir a consistência necessária para ser moldada.
Seguem-se as pequenas roscas, formadas manualmente e colocadas em tabuleiros.
Tradicionalmente, a cozedura era feita em forno de lenha, uma característica que influencia naturalmente o resultado final.
Depois de cozidas e arrefecidas, as roscas são cobertas com açúcar preparado em calda.
A cobertura branca e firme que fica à superfície é uma das suas características mais reconhecíveis.
Receita de Roscas de Monção
A receita que apresentamos abaixo é uma versão caseira inspirada na preparação tradicional das Roscas de Monção.
É importante fazer esta distinção porque as receitas tradicionais transmitidas localmente nem sempre apresentam quantidades normalizadas.
A proporção abaixo permite, no entanto, preparar as roscas em casa mantendo os principais elementos da receita tradicional: farinha, ovos, água, açafrão, anis e cobertura de açúcar.
Ingredientes
Para cerca de 18 a 20 roscas:
• 500 g de farinha de trigo sem fermento
• 4 ovos
• 100 ml de água
• 1 colher de chá de açafrão em pó
• 1 colher de chá de essência de anis
• 1 colher de sopa de açúcar
• farinha para polvilhar o tabuleiro
Para a cobertura:
• 300 g de açúcar
• 100 ml de água
Preparação
- Coloque a farinha numa taça grande e faça uma cavidade no centro.
- Bata ligeiramente os ovos e junte-os à farinha.
- Dissolva o açafrão na água e adicione-a gradualmente à massa.
- Junte a essência de anis e o açúcar.
- Trabalhe a massa até obter uma preparação homogénea e suficientemente firme para ser moldada. Se estiver demasiado seca, acrescente pequenas quantidades de água. Se estiver demasiado húmida, junte um pouco mais de farinha.
- Cubra a massa e deixe repousar durante cerca de 30 minutos.
- Divida a massa em pequenas porções.
- Role cada porção com as mãos, formando tiras com cerca de 15 a 20 centímetros.
- Una as extremidades e forme as roscas.
- Disponha-as num tabuleiro ligeiramente polvilhado com farinha, deixando algum espaço entre elas.
- Leve ao forno previamente aquecido a 180 ºC durante aproximadamente 20 a 25 minutos, ou até apresentarem uma cor dourada.
- Retire e deixe arrefecer completamente antes de preparar a cobertura.
Como preparar a cobertura de açúcar
- Coloque o açúcar e a água num tacho pequeno.
- Leve ao lume médio e deixe ferver sem mexer excessivamente.
- Cozinhe até obter uma calda espessa, próxima do chamado ponto de pérola.
- Retire do lume e deixe a calda arrefecer ligeiramente, mas sem permitir que solidifique.
- Passe ou pincele a calda sobre as roscas já frias.
- Deixe repousar até a cobertura secar e adquirir a característica aparência branca.
Um cuidado importante com a cobertura
A cobertura é provavelmente a parte mais delicada da receita.
Se a calda estiver demasiado líquida, não adere convenientemente à rosca.
Se estiver demasiado concentrada, começa a cristalizar antes de conseguir cobrir o doce.
Por isso, é preferível preparar a cobertura com alguma atenção e aplicá-la enquanto ainda apresenta a consistência adequada.
O resultado deve ser uma camada branca, firme e uniforme, mas não excessivamente espessa.
As Roscas de Monção e as festas
A relação entre as roscas e as festas locais é uma das características mais interessantes desta especialidade.
Durante gerações, os doces tradicionais estiveram associados às romarias e às festas religiosas, momentos em que as populações se reuniam e em que os produtos locais ganhavam particular importância.
As Roscas de Monção fazem parte dessa tradição.
O doce era preparado, transportado e vendido durante os momentos festivos, tornando-se progressivamente associado à própria experiência de visitar Monção em dias de festa.
É uma relação que ainda hoje ajuda a explicar a sua importância.
As festas da Senhora das Dores
Entre as celebrações mais importantes de Monção encontra-se a Festa em Honra da Virgem das Dores.
A festa reúne uma forte componente religiosa e cultural e integra-se numa tradição festiva muito característica do Alto Minho.
Para quem pretende conhecer as Roscas de Monção, visitar a localidade durante um período festivo permite perceber melhor a ligação entre o doce e a comunidade.
Em vez de encontrar apenas uma especialidade gastronómica numa pastelaria, é possível vê-la integrada no ambiente social e cultural que ajudou a preservar a sua tradição.
Antes de planear uma visita, é aconselhável confirmar as datas e o programa junto das entidades locais, uma vez que a programação pode variar de ano para ano.
Onde comprar ou provar as Roscas de Monção?
Uma das formas mais interessantes de conhecer as roscas é procurar as produtoras tradicionais que continuam a preparar o doce.
As roscas têm também uma ligação histórica à feira semanal de Monção, onde tradicionalmente são comercializadas.
Esta é uma característica particularmente interessante.
Enquanto muitos produtos regionais passaram quase exclusivamente para circuitos comerciais modernos, as roscas mantêm uma relação com os espaços tradicionais de venda e com as próprias festas.
Para quem visita Monção, vale a pena procurar informação local sobre os produtores disponíveis no momento da visita.
Roscas de Monção com vinho Alvarinho
Há ainda outra forma interessante de conhecer este doce: acompanhá-lo com um vinho da própria região.
O vinho Alvarinho é uma das referências gastronómicas mais fortes de Monção e Melgaço.
A combinação pode funcionar particularmente bem devido ao contraste entre a doçura da cobertura das roscas e a acidez e intensidade aromática características de um bom Alvarinho.
É uma combinação que também conta uma história.
De um lado está um doce associado às festas populares.
Do outro, um vinho que se tornou uma das grandes referências vitivinícolas do Alto Minho.
Juntos, ajudam a apresentar uma pequena parte da identidade gastronómica de Monção.
As Roscas de Monção num concurso nacional
A especialidade ganhou também visibilidade fora da região através da participação no concurso 7 Maravilhas Doces de Portugal, em 2019.
A presença entre os doces selecionados contribuiu para dar maior notoriedade nacional a uma especialidade que continua fortemente ligada ao território de Monção.
É precisamente este tipo de reconhecimento que pode ajudar a preservar produtos regionais menos conhecidos.
Quando uma especialidade aparece perante um público nacional, aumenta a curiosidade sobre a sua origem e sobre a tradição que lhe está associada.
Uma tradição que depende de quem sabe fazer
Um dos aspetos mais interessantes das Roscas de Monção é que a sua preservação depende de pessoas concretas.
Segundo informação municipal, a confeção tradicional continua associada a poucas famílias de rosqueiras.
Isto significa que preservar as roscas não consiste apenas em conservar uma lista de ingredientes.
É necessário preservar conhecimentos.
A consistência da massa, a forma de moldar as roscas, a cozedura e o ponto da cobertura são conhecimentos que se aperfeiçoam através da prática.
É precisamente por isso que uma receita escrita nunca consegue reproduzir completamente uma tradição gastronómica.
Um doce simples com uma grande história
As Roscas de Monção não são um doce sofisticado no sentido moderno da palavra.
Não precisam de ingredientes raros nem de técnicas de pastelaria complexas.
Precisam de farinha, ovos, água, açafrão, anis e açúcar.
Mas por trás desses ingredientes existe uma história muito maior.
Existe uma terra, existem festas, existem famílias que aprenderam a receita e existe uma tradição que continua a ser transmitida.
É isso que faz das Roscas de Monção uma especialidade que merece ser conhecida.
Porque a gastronomia portuguesa não vive apenas dos pratos que todos conhecem.
Também vive destes pequenos doces regionais que continuam a contar a história dos lugares onde nasceram.
E, no caso das Roscas de Monção, essa história continua a passar pelas mãos das rosqueiras e pelas festas da terra.

















